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Bruno Walter Caporrino

Bruno Walter Caporrino

É formado em Ciências Sociais pela USP e desde 2010 atua como indigenista pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena – Iepé, assessorando povos indígenas da região a se apropriar de políticas públicas e assegurar seus direitos, pactuando consensos sobre isso em respeito à sua organização social e saberes. O Iepé é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, fundada em 2002 por profissionais de diversas áreas, como antropólogos, biólogos e educadores, que já atuavam junto às comunidades indígenas no Amapá e do Norte do Pará desde a década de 1980 e que, com a fundação do Iepé buscaram formalizar esta atuação para fortalecê-la em um âmbito institucional e contemplá-la em um âmbito regional, assessorando os povos indígenas da região para que fortaleçam suas associações, expressões culturais e organizações sociais, através de processos formativos, e para que possam apreender as políticas públicas e influenciá-las a fim de que assegurem seus direitos e garantias.

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Vida de Papelão (2003)

Integrante do livro Diário Noturno - contos do autor

Era morena, alta, trazia a tez dourada - tal qual o mel que escorre suavemente dos favos, cantaria algum poeta parnasiano. Coxas torneadas, olhar sensual e seios firmes, encobrindo com o biquíni apenas o essencial para não ser autuada pela polícia sob a acusação de atentado ao pudor. Se bem que, caso andasse nua pelas ruas despudoradamente imundas da cidade, de forma a conferir a elas um pouco de beleza – mesmo que artificial - alegraria sobremaneira a massa de policiais supostamente encarregados de cessar tal exibição, e fatalmente seria deixada em liberdade.

Das associações xamânicas parte 1 – a Gestão do Mundo, num Plano

Sedentos, voltávamos do roçado recém-aberto quando ouvi o rumor da cachoeira. Estávamos chegando. Quando finalmente avistamos o rio, nos entreolhamos e rimos: banho! Roça brocada, kasiri sorvido, corpo amortecido – só nos restava banhar. Como sempre, os pequeninos rumavam na frente pelo caminho, esgueirando-se por debaixo de troncos – ou por cima deles – com sua agilidade indomável e, para variar, caíram na gélida água antes mesmos de assomarmos à beira.

De como sem respeitar os índios, o Brasil não respeita a si mesmo

Diferença e cidadania

No Brasil há diversos povos e comunidades tradicionais. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, ciganos e outras comunidades que possuem sistemas de pensamento e de organização política muito diversos. Esses grupos são muito diferentes: não é possível dizer que os povos indígenas, por exemplo, sejam “diferentes dos outros brasileiros mas todos iguais entre si”. Atualmente, há 252  grupos indígenas no Brasil, falantes de praticamente 250 línguas. Esses grupos não são apenas diferentes dos não-índios por falarem línguas e usarem vestimentas diferentes: detentores de sistemas de pensamento e  visões de mundo particulares, são muito diferentes, também, em seus modos de se organizar politicamente.

Eu sou a selva em que transformastes minha floresta

As rajadas de chuva levantavam a palha de ubim, aspergindo o interior da casa com gotículas frias, quando João pegou o guarda-corpo de encerado, amarelo, e soprou o pavio do lampião à querosene. De súbito, o ambiente escurecido da casa, até então lambido sofregamente pelas sombras móveis projetadas de maneira lisérgica pela labareda, tornou-se taciturno, comunicando-se com sua alma.

A golpes de machado: crônica do Golpe anunciado, vista da Floresta

Ele, o Lula, vem do povo, igual que nem nós. Nós vinhemos de Roraima para cá, é a mesma Perimetral. Alguns dizem que a Perimetral Norte surgiu em Roraima e outros dizem que começou aqui, no Amapá. E eu gostei da sua solução, Bruno: eu acho que começou foi nos dois lugares ao mesmo tempo. Lá, a gente torcemos muito: vai ter Constituição. Lutemo mesmo. Eu mais os minino viemos fugido, por causa que a gente mexia mesmo. Perguntava. Ajuntava todo mundo, queria saber com juiz por que saiu título de imóvel para um e não para os outros. Perseguiam nós. Intimidavam. Mas eu nunca que tinha sido humilhado assim, que nem agora, que nem aqui. Seu Pedro baixa os olhos, envergonhado. Desguia os olhos, como quem busca enxergar para dentro. A polpa de cupuaçu tá toda aí se estragando, retoma o fio do discurso. Faz é duas semanas que a gente tamos sem luz por aqui. Tá se estragando, veja se leva para ti – prossegue, contendo as lágrimas.

Você está implicado – e não vai bamburrar

Ato I – caem as máscaras

Um embate – silencioso aos ouvidos dos que se extinguem nos congestionamentos labirínticos das grandes metrópoles – realiza-se agora, nesse exato momento – e há muito – nas florestas da Amazônia, nos cerrados amapaenses e paraenses (porque o mato-grossense já capitulou, juntamente com nossa dignidade humana). Ele às liga à Avenida Paulista e às bolsas de valores e mercadorias do mundo inteiro. Não, desligue seu Netflix: não se trata de um embate entre forças “do mal” e forças “do bem”, a ser resolvido por alguma solução narrativa mágica – como cuecas por sobre calças coladas voando sobre arranha-céus e “combatendo o mal”.

Na riqueza, a pobreza – o dilema da Amazônia na carne

Assim que entramos no mercado do peixe do Perpétuo Socorro, enfrentando a azafamada beira do Igarapé das Mulheres, onde aportam as embarcações que realizam a comunicação entre Macapá e comunidades como Jussara, Piaçava, e cidades como Breves, Chaves, e sobretudo Afuá, somos surpreendidos – mais ou menos, dependendo do contato que se tem com esses mercados de peixe da Amazônia – pela barafunda colorida e álacre que toma as bancadas recobertas de zinco onde jazem, ainda vivos – mais do que frescos – tambaquis, uritingas, piaus, pacus, pacusis, piranhas, acaris, bodós, filhotes, piraíbas, matrinxãs, pirapitingas, surubins, etc.

Anima mundi: perspectivismo e animismo ameríndios, ou, de como os índios filosofam

Il Padre- Il dramma per me è tutto qui, signore: nella conscienza che ho, che ciascuno di noi – veda – si crede ‘uno’ ma non è vero: è ‘tanti’ signore, ‘tanti’, secondo tutti la possibilitá d’essere che sanno in noi: ‘uno’com questo, ‘uno’ com quello – diversíssimi! E com l’illusione, intanto, d’esser sempre ‘uno per tutti’, se sempre ‘quest’uno’ che ci crediamo, in ogni nostro ato. Non è vero! Non è vero!

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