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Germina: Revista de Literatura & Arte - Deixa que os mortos enterrem seus mortos?

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Acaba de ser publicado pela edição de maio de 2017 da "Germina: Revista de Literatura & Arte" (http://www.germinaliteratura.com.br/index1.htm) o texto "Deixa que os mortos enterrem seus mortos?", de autoria do escritor e professor Flávio Ricardo Vassoler -- eis o link: http://www.germinaliteratura.com.br/2014/exilio_capa.htm

 

E eis um trecho de "Deixa que os mortos enterrem seus mortos?":

 


I. Auschwitz é para nós o equivalente a visitar a casa de nossos pais?

 


Assim falou Rainer Hoess, neto de Rudolf Hoess, o oficial da SS que comandou/administrou o campo de concentração de Auschwitz: “Auschwitz é para mim o equivalente a visitar a casa dos meus pais”. Consta que, há pouco mais de 15 anos, após um infarto – experiência escatológica que Rainer considera o seu chamado –, o neto de Rudolf Hoess abandonou todas as suas atividades paralelas para se tornar um ativista antinazista em tempo integral. Hans Jürgen Hoess, filho de Rudolf e pai de Rainer, vivia com a família a 200 metros do forno crematório de Auschwitz I. 

 


Em 1877 – 23 anos antes do nascimento de Rudolf, 60 anos antes do nascimento de Hans Jürgen e 88 anos antes do nascimento de Rainer –, Liev Tolstói abre o romance Ana Karenina com o seguinte aforismo: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. 

 


Quando ficamos sabendo que Rainer se refere à indústria de insumos humanos que o avô administrou como o maior cemitério da história; quando ficamos sabendo que o pai de Rainer colhia morangos recobertos por cinzas humanas nos jardins da indústria de extermínio – cinzas expelidas pela chaminé do forno crematório –, é preciso sentenciar que, em meio à montanha de corpos empilhados e pulverizados, as famílias infelizes se parecem entre si; as felizes, por sua vez, são felizes (e culpadas) cada uma à sua maneira. Assim falou Rainer Hoess: 

 


Já estive em Auschwitz 28 vezes, e a experiência é sempre a mesma. Quando estou chegando e vejo o primeiro sinal de estrada (Auschwitz), tenho consciência do que vem a seguir e do que lá aconteceu. E não posso tocar em nada, não quero ter nenhuma ligação pessoal com o meu avô. Se eu estiver em frente a um dos blocos, espero que alguém saia para eu poder entrar, eu mesmo não abro as portas. Porque os crimes estão inscritos em todas as paredes daquele lugar. Auschwitz é para mim o equivalente a visitar a casa dos meus avós, e isso faz com que eu me sinta sempre envergonhado. Tenho vergonha do que o meu avô fez; tenho vergonha de que ele não se tenha questionado sobre se o que fazia era certo ou errado; e tenho vergonha de que ele não tenha mostrado arrependimento perante as vítimas depois da guerra, quando estava na prisão. E tenho vergonha de fazer parte de uma família assim. Sempre que vou a Auschwitz, a primeira coisa que procuro é a forca, onde o meu avô morreu em 1947.

 


A 200 metros do forno crematório de Auschwitz I, onde ficavam a casa dos avós e o jardim da infância do pai, Rainer Hoess entreouve uma pergunta de Friedrich Nietzsche: Não seria verdadeiramente maduro apenas o adulto que consegue recuperar a seriedade da criança ao brincar? Resposta do cinquentenário Rainer Hoess, neto de Rudolf Hoess e filho de Hans Jürgen Hoess: Não, Nietzsche. Definitivamente, não. 

 


O texto em questão faz parte da coluna "Exílio" (
http://www.germinaliteratura.com.br/2014/exilio_capa.htm), que Flávio Ricardo mantém desde o fim de 2014 e na qual já foram publicados os seguintes textos: 

 


(i) "Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio": 

 

http://www.germinaliteratura.com.br/2014/exilio_dez14.htm (dezembro de 2014); 

 


(ii) "The cistern contains, the fountain overflows":

 

http://www.germinaliteratura.com.br/2015/exilio_mar15.htm (março de 2015); 

 


(iii) "E se o transatlântico, enquanto vai a pique, fizer o elogio do próprio naufrágio?": 

 

http://www.germinaliteratura.com.br/2016/exilio_jun16.htm (junho de 2016); 

 


(iv) "E agora, Moisés? E agora, você?": 

 

http://www.germinaliteratura.com.br/2016/exilio_set16.htm (setembro de 2016); 

 


(v) "Niilismo e comunhão": 

 

http://www.germinaliteratura.com.br/2016/exilio_dez16.htm (dezembro de 2016). 

 


Sobre o escritor:

 

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

 

 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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